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Novo membro da Academia Mineira de Medicina

A Fisiatria recebe, com grata satisfação, a notícia da nomeação de uma das suas mais ilustres "filhas" como membro da Academia Mineira de Medicina. A Dra. Cláudia Fonseca Pereira foi empossada no dia 16 de novembro desse corrente ano de 2017 e passa a ser acadêmica titular da cadeira nº 51. Como já dizia o saudoso acadêmico Dr. Hilton Rocha: "Ser Acadêmico não é ser escritor, nem poeta. Mas é ser médico. Integrado na profissão havido vivido os seus dramas, as suas incertezas, suas habilidades, suas batalhas, a sua grandeza e as suas emoções".

E, para quem conhece a Dra. Cláudia, bem sabe da sua competência, do seu empenho diário e da forma incansável com que exerce o seu ofício de médica Fisiatra. Sabe ainda, que além das habilidades técnicas, é dotada de um senso humanitário e enorme sensibilidade afetiva que são capazes de reconhecer o sofrimento humano e cuidar dele com zelo e dedicação. Segue, com brilhantismo, os passos do seu saudoso pai, o notável Dr. Gilberto Fonseca, um dos pioneiros da Medicina Física e de Reabilitação no Brasil e um dos fundadores do Hospital Arapiara em Belo Horizonte, Minas Gerais. Certamente, não só a herança genética, mas também o comportamento exemplar de um homem íntegro e comprometido com a causa daqueles excluídos e segregados a uma vida de menor valor foram as inspirações recebidas pela Dra. Cláudia. Desde a época da sua residência médica, no Hospital Arapiara nos anos de 1991 e 1992, vem trilhando com bravura e afinco um caminho árduo e de muitas dificuldades em prol de um maior reconhecimento da Fisiatria, tanto nos meios acadêmico como político. Trabalha incansavelmente junto com outros nomes de expressão dentro da Fisiatria nacional na elaboração de estratégias que visam consolidar e regulamentar as leis de inserção social e de mais igualdade para os deficientes físicos. Foi preceptora da residência médica do Hospital Arapiara, e, desta maneira, contribuiu enormemente para a formação acadêmica de tantos outros médicos fisiatras, que assim como eu, se espelharam na sua postura ética. Lembrando aqui o grande médico e escritor Guimarães Rosa, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, disse que "o afeto propõe fortes e miúdas reminiscências". E, por isso mesmo, num momento de tamanha alegria e gratidão, não há como esquecer que a vida da gente é, sobretudo, permeada de bons exemplos, de pessoas que constroem as suas histórias e nos deixam um legado de que o trabalho feito com amor nunca morre e sobreviverá ao tempo através daqueles que conquistamos. Portanto, "fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente", que se perpetua infinitamente e nos faz imortal. Parabéns, Dra. Claudia, o seu trabalho não é em vão e ele ficará gravado eternamente em seus pacientes, em seus colegas, em seus amigos e em seus familiares. O título, que ora recebe, consolida os anos de dedicação à Medicina Física e de Reabilitação, com a certeza de que os seus esforços continuarão em benefício dessa especialidade e dos muitos seres humanos em sofrimento que buscarão seu auxílio. A Academia Mineira de Medicina ganha um membro titular da qual se orgulhará muito, assim como a Fisiatria sempre se orgulhou e assim como todos nós que a conhecemos nos orgulhamos imensamente e nos irmanamos, neste momento, num grande e afetuoso abraço.


Dra GABRIELLA MENDES DE SOUZA

Confira o discurso da Dra. Cláudia.

Exmos ........

Ao ser convidada pelo nosso querido Dr Geraldo Caldeira para fazer parte deste grupo seleto do mais alto nível intelectual, moral e ético, começou em mim um alvoroço de sentimentos: o medo de não ser merecedora, a ansiedade de querer corresponder à honra oferecida, o assombro pela palavra IMORTAL.
Mas, como Albert Einstein bem disse, “não se deve ir atrás de objetivos fáceis, é preciso buscar o que só se pode ser alcançado por meio dos maiores esforços”.
E assim acalmei minha alma com dedicação total a esta empreitada – a maior de minha vida profissional, na procura do sonho do convívio futuro com pessoas que me farão crescer enquanto ser humano.
“O homem é o tamanho do seu sonho. Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”. E posso falar, Fernando Pessoa, que chegou o meu dia tão esperado.
Platão equiparou a virtude ao conhecimento, e disse que a razão deve governar a alma. A Academia de Atenas objetivava formar novos homens, com liberdade de pensamentos e de expressão. O fundamento da Escola era o ato do diálogo para a transformação do ser humano cujas virtudes seriam da nobreza de espírito, da bondade sincera e do amor incondicional.
Hoje, neste ritual de acolhida à minha pessoa, inicio refletindo sobre a imortalidade:
Ao se entrar para a Academia, se torna imortal! Como Dr Geraldo Caldeira bem escreveu, “o homem se perpetua tendo um olhar que olha com dignidade, com ética, com respeito, com aceitação do outro como um legítimo outro na convivência, o que constitui o amor. O amor deveria ser o pré-requisito para a entrada na Academia.”
Vinícius de Morais, num de seus poemas mais sublimes, sugere que o amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.
Foi então que entendi esta dicotomia: a imortalidade de uma chama é possível sim, ao aprofundarmos nos preceitos de Platão: um amor sublime, que ultrapassa vidas, amor pela humanidade. A imortalidade de uma chama é possível através do revezamento, passando-se a responsabilidade de mantê-la acesa e viva na memória universal.
Na minha finitude, cabe a mim hoje receber esta chama e iluminar o passado como na tradição oral de nossas cantigas antigas e histórias mais queridas.
Assim, começo pautando primeiro por meus predecessores, e só mais à frente descortinando minha caminhada.
A chama da cadeira 51 foi acesa para homenagear um médico que tinha um amor incondicional pela medicina e pelo próximo. Nada mais justo que o patrono desta cadeira seja o professor Dr João Costa Chiabi, pediatra natural de Conceição do Mato Dentro. Nascido em 1908, ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte em 1926, terminando o curso, após transferência, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e fazendo sua residência no Hospital São Sebastião do RJ. Voltando para BH, defendeu tese sobre “Giardíase na Infância”, em 36, entrando como livre-docente na Clínica Pediátrica Médica e Higiene da Faculdade de Medicina da Universidade de MG, onde foi chefe da Clínica Pediátrica até 1941.
Casou-se com Geraldine Rennó neste ano. Não tiveram descendentes.
Filiou-se com entusiasmo à Escola Pediátrica Alemã, onde esteve fazendo cursos por 2 vezes.
Além de inúmeras atividades científicas, tinha uma dedicação sem limites ao paciente.
Nada o dissuadia do seu rígido programa de vida: trabalhar e estudar com afinco.
Aos 40 anos de idade, sofreu o primeiro infarto, mas logo voltou ao seu trabalho e estudos.
Após 6 anos, sofreu um segundo infarto que o obrigou a reduzir o trabalho, mas não os estudos, inclusive como catedrático da Clínica Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas de MG.
Jamais demonstrava impaciência, sempre cercado de universitários, que o consideravam excelente professor.
Infelizmente, após 3 anos, aos 49, sofreu seu terceiro infarto, que o deixou extremamente limitado. Mesmo assim, só interrompeu suas aulas quando foi forçado ao repouso permanente, com seu falecimento tão precoce aos 50 anos de idade, em 10/04/1958.
Altruismo é o seu lema.
Fernando Pessoa me trouxe a frase que o representa: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Viver sem um sentido maior, não é viver.

O primeiro representante da cadeira 51 e fundador da Academia Mineira de Medicina nos idos anos 70 foi o Professor Dr Olavo Gabriel Diniz.
Nascido em Curvelo, entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de MG, formando-se em 1937.
Acompanhou, após formado, a Cadeira de Clínica Pediátrica do Professor Mello Teixeira por 2 anos, voltando então para Curvelo como Chefe da Clínica Pediátrica do Hospital Santo Antônio, em 1941. Lá se casou, em 43, com Maria Helena de Salvo Souza, com quem teve 6 filhas.
Trabalhou em pesquisas nas áreas de bacteriologia e alergia. Foi inclusive sócio fundador da Sociedade Brasileira de Alergia, em 46.
Voltou para BH em 1950. Em 56, ocupou o cargo de Assistente da Cadeira de Clínica Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas, cujo chefe era o seu mentor e grande amigo Costa Chiabi. Exerceu inúmeros cargos na Sociedade Mineira de Pediatria, culminando com a Presidência em 1963.
Homem sério, dinâmico, eficiente e desprendido, ocupou cargos de tesoureiro em quase todos os lugares por onde passou.
Na Academia Mineira de Medicina, foi tesoureiro da 1ª diretoria eleita, recebendo a medalha de honra ao mérito por serviços prestados à Academia em 1979.
Em 80, foi agraciado com a Medalha Carlos Chagas pelo governador Francelino Pereira.
Dr Olavo Gabriel faleceu, como acadêmico emérito, em 30/11/2003.
Sua virtude pode ser expressada pela Integridade.
Segundo Platão, a virtude é mais importante que a riqueza e a fama, e tenho certeza que assim pensava nosso querido Dr Olavo Gabriel.
Para ele, dedico a frase de Platão:
“Devemos seguir sempre o caminho que conduz ao mais alto.”

O que dizer do Dr Geraldo Caldeira, meu paraninfo desta jornada?
Dr Geraldo nasceu em 1935, na cidade de Santo Hipólito, terra cujo tesouro é seu povo, de nobres sentimentos, como diz o próprio Dr Caldeira.
Em 54, entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de MG, concluindo o curso em 2º lugar.
Casou-se com sua querida Jaine Rodrigues Marques em 1962; com ela teve 3 filhos. Foi chefe da 3ª enfermaria de mulheres da Santa Casa de Misericórdia de 68 a 88, e diretor da UTI da Santa Casa desde sua fundação em 1974.
Foi presidente da Sociedade de Gastroenterologia e Nutrição de MG de 75 a 78.
Fez sua formação em Psicanálise de 73 a 78 e curso de psicanálise em grupo, culminado com a Presidência da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, no biênio 94/96.
Na AMMG, foi seu vice-presidenteem 75/79 e Presidente nos anos de 97 a 99.
Em 1999, recebeu merecidamente o título de cidadão honorário de BH.
Neste mesmo ano, ingressou na Academia Mineira de Medicina, da qual foi o vice-presidente em 2003/2005 e seu Presidente em 2011.
Com este currículo brilhante que apenas resumidamente enumerei, seus atributos pessoais o fazem um ser humano superior:
Humanista, tem como característica a simplicidade e alegria.
Dentre tantas qualidades morais, é difícil escolher uma que o individualize: fico na escolha da Empatia. Porque aprendemos com ele a nos colocar no lugar do outro, procurando compreender sentimentos e emoções com a intenção de ajudar o próximo.
Para o senhor, Dr Geraldo, dedico 2 frases: a primeira é a citação de Sócratesque almejo alcançar: “para conseguir a amizade de uma pessoa digna, é preciso desenvolvermos em nós mesmosas qualidades que nela admiramos”.
E a outra: “um homem sem constância não pode ser consolador nem médico”. Frase de Confúcio, que exemplifica bem a importância do senhor como o ser humano com quem a gente sempre pode contar.
Muito obrigada pelo voto de confiança em mim.
Iniciando agora minha trajetória, não tenho como deixar de agradecer às pessoas que me ajudaram a ser como sou:
Nasci em BH de um pai médico que só nos deu bons exemplos ao longo de sua vida, Dr Gilberto de Almeida Fonseca, e de uma mãe de espírito criativo e inteligente, Designer, Maria Ignez Coutinho Fonseca.
Meus irmãos, Gilberto, Ricardoe Ana Paula, todos nós seguimos a carreira médica, no sonho de conquistar o respeito, a admiração, a vida honrada que nosso pai conquistou. Ter irmãos que são amigos com os quais podemos contar em qualquer dificuldade, e ainda colegasde profissão honrados e admirados nos seus meios é um privilégio que agradeço todos os dias de minha vida. Ana Paula, minha companheira de especialidade, minha escudeira em todas as batalhas.
Agradeço aos meus tios na lembrança de meu padrinho, médico, Marcus Vinícius Aguilar Coutinho, que me ensinou a importância da tradição, do conhecimento amplo. Sua inteligência sagaz e o amor que nos dedicou, guardamos na nossa memória.
O interesse ávido pelo conhecimento e conceitos de moralidade, adquiri tanto no seio familiar quanto em minha primeira escola, Santo Tomás de Aquino. Agradeço à D Tereza Machado e à D Marlene Zica pela dedicação com que doaram seu tempo ao nosso crescimento pessoal e profissional, e transmitiram sua sabedoria.
Entrei para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de MG em 1984 após o científico no Colégio Santo Antônio e a temperança do saudoso Frei Ilário.
Na Medicina, tive professores ilustres, alguns deles agora meus colegas nesta confraria, como meu paraninfode formatura na UFMG,Dr Alcino Lázaro, que, em sua pessoa, agradeço a todos.
A meus colegas e amigos de faculdade, que estiveram ao meu lado nas horas difíceis de um curso extenso e muitas vezes sofrido pelas dificuldades sociais a que nos deparamos neste país de tantas desigualdades, a eles agradeçopelo companheirismo e por me ajudarem nas melhores escolhas.

Formada em 1989, passei também pela Santa Casa de Misericórdia de BH, na Enfermaria de Mulheres do 6º A, sob o comando do inesquecível Dr José Haddad, que tanto me ensinou junto com sua equipe.
Devo à admiração que sempre nutri pelo meu pai a escolha de minha especialidade, a Fisiatria. Meu pai, além de um ser humano virtuoso, em que palavras como benevolência, justiça, sabedoria, generosidade expressam apenas um pouco de sua alma, foi um dos primeiros fisiatras do Brasil. Ele trouxe dos Estados Unidos o conceito de Medicina voltada à Qualidade de Vida, a abordagem holística do ser humano, a integralidade e individualidade de cada vida e a importância do trabalho em equipe. Esta forma de ver a medicina me apaixonou, assim como eu via paixão em tudo que nosso pai fazia. Tive a honra de ter esta pessoa tão especial como pai, como professor– tão cedo nos deixou, mas deixou exemplos inestimáveis de amor, dedicação e respeito ao próximo. Quantas vezes o ouvi falar, com alegria e otimismo: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”- de Fernando Pessoa. Sua alma, de tão grande, abraçou nosso mundo inteiro.
Passei pela Fisiatria com mestres ilustres, no Curso de Especialização do Hospital Arapiara, e todos me ajudaram a galgar espaços mais altos, tanto na área assistencial quanto associativa. Com o incentivo de meus professores, colegas e amigos de todo o país, cheguei à presidência da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação, com uma equipe de diretoria que me apoiou e ajudou em todas as decisões, nos biênios2004/2006 e 2006/2008.
Neste período, vivenciamos um marco na história da Reabilitação Brasileira, quando a Convenção da ONU para os Direitos das Pessoas com Deficiência foi aceita por Quorum qualificado pela nossa câmara e senado, passando a ter status de Emenda Constitucional no Brasil.

O enfoque da Fisiatria é a restauração plena da saúde do indivíduo, e isso inclui diagnosticar e tratar a dor crônica, as dificuldades de movimento, as doenças incapacitantes. Ganha assim o paciente em dignidade e qualidade de vida, e ganha a sociedade em responsabilidades financeira e assistencial.
Pelo senso de 2010, 23% da população brasileira se declara com alguma deficiência.E o medo da dependência é a grande inquietação, praticamente universal, que acompanha o processo de envelhecimento.
A fisiatria, como clínica da pessoa com deficiência, acredita que a discussão da inclusão plena do indivíduo é um forte instrumento de construção da cidadania, para um mundo mais aberto à diversidade humana.
E é por isso que tenho orgulho da minha especialidade, que me faz sentir útil e me traz oportunidade de aprender sobre solidariedade e superação a cada dia.

Faço um agradecimento especial ao meu sobrinho e afilhado Mateus, que nos brinda com seu dom ao tocar o piano para nós nesta cerimônia. Abraçando a ele, abraço a todos os meus sobrinhos queridos, que guardo no coração.
À minha mãe, pessoa forte, de uma inteligência emocional ímpar, de uma sabedoria política que muitas vezes me aconselhou e que me apoia ao longo de minha vida –Obrigada por toda ajuda!
Meu filho Lucas, que foi meu prêmio maior que conquistei: um ser humano especial, bondoso– não me deu trabalho nem quando estava ainda no meu ventre, período em que eu passava por um turbilhão de sentimentos na vivência da perda iminente de meu esteio que era meu pai. Você chegou ao mundo como uma bênção, um milagre, e já veio completo, pouco precisei te ensinar: você nos dá orgulho sempre. Te amo incondicionalmente!
Meu marido, meu companheiro, Sérgio, que me dá alegria de viver, me apoia, me acalma, divide comigo momentos bons e difíceis de nossas vidas há 30 anos! Como agradecer pela sintonia de alma que temos? Pelos momentos de diálogo; com você aprendi que não há rotina na vida. Não há um dia igual ao outro, se você realmente enxerga o outro.
E entendemos assim a frase de Guimarães Rosa: “o mais importante e bonito do mundo é isto, que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando”.
A cada dia, a cada mudança, eu te amo mais.

Obrigada pela presença de todos estes amigos que hoje vieram, ao meu lado, me conduzir a este novo desafio.
Termino com a citação de Einstein: “Há duas formas de viver a sua vida. Uma é acreditar que não existem milagres. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.”
Muito obrigada.